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quinta-feira, 5 de março de 2015

Desafios do educador através do movimento na atualidade


Parecem ser os Profissionais de Movimento, atravessados por tantas áreas de conhecimento, aqueles com ferramentas adequadas para desestabilizar estruturas sociais instaladas e provocar transformações políticas através da transformação do pensamento sobre corpo e movimento.
Desde práticas íntimas, que nos transformam a cada dia, passando pela resistência cultural necessária de continuar dançando, movendo, fomentando o campo, até a batalha política de ocupação, reconfiguração e convencimento de outras esferas sobre a importância vital desses saberes e fazeres.
Afinada com Sylvie Fortin, “(...) Sustento a ideia de que uma modificação nas fontes de saber empreende uma mudança nas relações de poder. (...)” (FORTIN, 2003, p. 163)
Nesta intenção, listo, aqui, alguns desses pressupostos com os quais me afino:
- não há outro lugar para a produção de conhecimento e a consciência que não seja a materialidade do corpo vivo;
- a base da construção da inteligência/pensamento/sentimento é a motricidade;
- corpo é ideologia;
- cada experiência/vivência se corporifica através de movimento corporal visível ou não aos olhos;
- corpo, movimento, imaginário e arte proporcionam complexidades favoráveis a caminhos evolutivos.





terça-feira, 3 de março de 2015

Simulação de uma caminhada: movimento da função e da fantasia

A característica de balanço da Flymoon® viabiliza, dentre muitas outras possibilidades, a simulação de uma caminhada, sendo que, ao invés da alternância entre ponto fixo e ponto móvel (chão e perna que dá o passo), teremos as duas pernas apoiadas todo o tempo, em cadeia cinética fechada e, simultaneamente, pela característica do arco, as duas pernas estão realizando movimento todo o tempo, alternando-se entre contrações concêntricas e excêntricas. A negociação entre permitir que a gravidade atue e frear o movimento, regulará a velocidade dessa ‘caminhada’, que foi o primeiro movimento sistematizado como exercício e batizado de 'Andando na Lua'.
A desaceleração na fase da descida é um movimento atípico na nossa esfera terrestre. É uma aparente subversão da gravidade inesperada por quem se move e por quem assiste ao movimento. Cria a interessante ilusão de que aquela caminhada está sendo feita num ambiente de gravidade reduzida, na lua ou dentro d’água, despertando curiosidade e obrigando quem pratica e quem observa o movimento a reconfigurar sua percepção, deslocando o sentido de realidade, capaz de alimentar seu imaginário e fazer crer em impossibilidades que se realizam: ‘como é possível que o efeito da gravidade seja diferente naquele corpo?’. Esta ilusão é possível apenas – neste caso específico – pelo uso do equipamento. 



                               

segunda-feira, 2 de março de 2015

O primeiro insight


O primeiro insight foi ficar em pé sobre as bordas. Esta foi a posição que iniciou todo o trabalho. A posição bípede (com o apoio de um pé sobre cada borda da Flymoon®), a mais imediata para a maioria das pessoas, apesar de muito familiar no chão, torna-se inédita e estranha sobre a base abaulada, móvel e estreita, que é a Flymoon®. 

Estar em pé sobre esta base instável não é o mesmo que estar em pé sobre o chão plano e fixo. O arco revela qualquer variação na distribuição de peso entre as pernas, mais comuns do que imaginamos, gerando pequenos balanços involuntários ao tentarmos equilibrar o peso igualmente sobre os dois pés. No imediato momento em que balançamos, entram em ação os sistemas de equilíbrio do corpo – visão, labirinto e sensores proprioceptivos , que trabalham acionando, involuntariamente, a musculatura mais profunda, estabilizadora, para nos manter em equilíbrio.


Não há indicação externa que possa solucionar o seu desequilíbrio de forma tão rápida e eficaz quanto a sua própria inteligência corporal. Essa ‘autoridade’ sobre o próprio esquema corporal é constituinte de todo o trabalho sobre a Flymoon®, que privilegia a autonomia na construção do próprio conhecimento motor. A competência vai sendo desenvolvida a partir da experiência, irrepetível e insubstituível, que não pode ser ‘dada’ pelo professor. Portanto, a busca criativa é parte fundamental desse processo. Quando o movimento está associado à fantasia, imaginação, poesia e ludicidade, existe motivação e a ação fica repleta de sentido. 







quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Sensitivity and confidence in the experience of instabilities / Sensibilidade e confiança na vivência de instabilidades

The first time someone steps on the Flymoon®, sensitivity is required from the teacher. In general, the teacher can only superficially indicate what will happen and how the student must protect from the imbalance, but the experience to balance themselves on the Flymoon® is non-transferable and the teacher indications about the muscles won't help much. It's just necessary to give them confidence, to have security strategies (something in which the student can hold on to) and time for adaptations to happen.
From the experience of observing how students deal with the instability of the Flymoon® -  that takes off the commonplace, transforms the weight-bearing relationship over the feet, causes insecurity, laughter, fear, excitement and unexpected reactions -, I realized that:
1. It takes time to handle the instability;
2. It is pointless to make indications on the voluntary muscle actions; and,
3. It is absolutely necessary to provide trust and confidence by being near the student and through prior indications about how to leave the risk position, where to hold on to and having a helpful and friendly attitude, providing indications that physiologically situate the experience, and recognizing and accepting the personal difficulty to that uncomfortable experience of loss of control over the own balance.

It is absolutely ineffective to make any indication similar to: 'hold by the abdomen', 'keep your arms relaxed', or other proposals like this, when the student is unwittingly trying to keep his/her balance. It was from these notions constructed by experience with the instability of the Flymoon® on students that I saw paths to a methodology with less motion directions and more space for the insertion of a Poetic Dimension to people's lives, through personal investigation of movement, through the creative experience, through the 'empty', through the recognition of one's Internal Authority, and the possibility of questioning fast rules.
Foto: Tatiane Chitão

Na primeira vez que alguém sobe na Flymoon®, é preciso sensibilidade do professor. Em geral, o professor só pode indicar superficialmente o que vai acontecer e como o aluno deve se proteger do desequilíbrio, mas a experiência de equilibrar-se sobre a Flymoon® é intransferível e as indicações musculares do professor ajudarão pouco. É preciso simplesmente dar-lhe confiança, estratégias de segurança (algo no qual ele possa se segurar) e tempo para que as adaptações aconteçam.

A partir da experiência de ver como os alunos lidam com a instabilidade da Flymoon® – que tira do lugar comum, transforma a relação de descarga de peso sobre os pés, provoca insegurança, riso, medo, entusiasmo e reações inesperadas –, percebi que:


1. É necessário tempo para lidar com a instabilidade;

2. É inútil fazer indicações de ações musculares voluntárias; e,
3. É absolutamente necessário oferecer confiança e segurança estando próximo ao aluno e através de indicações prévias sobre como sair da posição de risco, onde se segurar e uma atitude atenciosa e acolhedora, oferecendo indicações que situem, fisiologicamente, a experiência, e reconhecendo e acolhendo a dificuldade pessoal àquela experiência desconfortável de perda de controle sobre o próprio equilíbrio.

É absolutamente sem efeito qualquer indicação do tipo: ‘segure pelo abdome’, ‘mantenha os braços relaxados’, ou outras propostas desse tipo, quando o aluno está involuntariamente tentando equilibrar-se. Foi a partir dessas noções construídas pela experiência com a instabilidade da Flymoon® nos alunos, que vi caminhos para uma metodologia com menos indicações de movimento e mais espaços para a inserção de uma Dimensão Poética à vida das pessoas, pela investigação pessoal de movimento, pela experiência criativa, pelo ‘vazio’, pelo reconhecimento da própria Autoridade Interna, pela possibilidade de questionar regras prontas. 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Research and creativity through the moving body / Pesquisa e criatividade pelo corpo em movimento

For Paulo Freire: "there is no teaching without research and research without teaching."
And he explains:
 [...] From my understanding, what is there of a researcher within the teacher is not a quality or a way of being or acting that is added up to the teaching. The quest, the search, the research are part of the nature of the teaching practice. What is necessary is that, throughout their ongoing education, the teachers perceive and accept themselves - because they're teachers - as researchers. (FREIRE, 2009, p. 29)
The same way as Freire (2009), which argues that teachers must be understand themselves as researchers and take over the investigation as a life attitude, Winnicott (1975) states that there is a link between creative living and living itself. For him, people living creatively feel that life is worth living, while those who cannot live creatively have doubts about the value of living.
But ... how to exercise students' creativity in just 2 hours a week? How to convince people of the importance of a less directed and more creative activity? How to justify the methodological change? How to make the "empty" of improvisation less scary?

These were questions that began to find answers during my practice derived from the instability provided by the Flymoon®.












Para Paulo Freire: “não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino”. 
E ele explica:

[...] No meu entender o que há de pesquisador no professor não é uma qualidade ou uma forma de ser ou de atuar que se acrescente à de ensinar. Faz parte da natureza da prática docente a indagação, a busca, a pesquisa. O que se precisa é que, em sua formação permanente, o professor se perceba e se assuma, porque professor, como pesquisador. (FREIRE, 2009, p. 29) 

Assim como para Freire (2009), que defende que o professor precisa entender-se como pesquisador e assumir a investigação como atitude de vida, Winnicott (1975) afirma que há um vínculo entre o viver criativo e o viver propriamente dito. Para este, as pessoas que vivem criativamente sentem que a vida merece ser vivida, enquanto aqueles que não podem viver criativamente tem dúvidas sobre o valor do viver. 

Mas... como exercitar a criatividade dos alunos em apenas 2 horas por semana? Como convencer as pessoas da importância de uma atividade menos dirigida e mais criativa? Como justificar a mudança metodológica? Como fazer “o vazio” da improvisação menos assustador?

Essas foram perguntas que começaram a encontrar respostas na minha prática a partir da instabilidade proporcionada pela Flymoon®.