sábado, 14 de março de 2015

Um novo modo de estar presente no mundo


Expor-se a muitas situações diversas, não habituais e propiciadoras de instabilidade física e desafiadoras para a coordenação motora, [...] não resultam somente em uma reorganização dos músculos profundos e superficiais do corpo, mas num novo modo de estar presente no mundo e numa nova perspectiva acerca desse mundo. [...] (FORTIN, 2011).





sexta-feira, 13 de março de 2015

Os desafios motores propiciam processos de ampliação da inteligência


Quando desestabilizamos o corpo – com o desequilíbrio que nos coloca na iminência da queda; com desafios de coordenação motora; com estímulos não habituais aos sistemas de equilíbrio; com estímulos proprioceptivos não habituais – expomos o Sistema Nervoso Central (SNC) a situações não habituais, novos problemas, para os quais são necessárias reações não habituais.

Desafiando o SNC com novos problemas, são necessários novos caminhos neuronais para solucioná-los. É necessário [...] um processo de organização, que engloba o conjunto de funções cognitivas e que tende a uma forma de equilíbrio, que caminha em direção a certas formas de equilíbrio final [...] (PIAGET, 195148). Este processo é parte do que define a inteligência, segundo Piaget. Os desafios motores propiciam processos de ampliação da inteligência. 
Esse trio arrasa! Tati Chitão, Carla Pyrrho e Fernanda Lima.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Nossos corpos são inerentemente instáveis, por serem programados para a mobilidade


A instabilidade é também resultado de adaptações estratégicas para a sobrevivência. Como afirma Mary Bones:
[...] Nossos corpos são inerentemente instáveis, por serem programados para a mobilidade. [...] Os músculos e outros tecidos que mantém o esqueleto coeso, e os órgãos contidos neles, são quase 70 porcento água, tornando-os ainda mais móveis. A instabilidade do design fornece plasticidade corporal suficiente para adaptar flutuações internas da respiração, digestão e outros processos vitais, assim como a variedade de posições que assumimos ao nos movermos. [...] (BONES, 2007, p. 5). 

Ser instável é parte da natureza. Ser instável é parte da nossa adaptação ao mundo. Instabilidade é estratégia de sobrevivência. Por isso, precisamos brincar com ela na vida e na arte; na infância e na maturidade.


Foto: João Meireles

Foto: João Meireles


quarta-feira, 11 de março de 2015

Para cada pensamento apoiado por sentimento, há uma mudança muscular

Em 1937, Mabel Todd já afirmava que:
[...] Vivendo, o corpo inteiro carrega seu significado e conta sua própria história, levantando, sentando, andando, acordando ou dormindo. [...] Para cada pensamento apoiado por sentimento, há uma mudança muscular. [...]

A possibilidade de olhar diferente, a retirada do que é seguro, a desestabilização, em suma, a Instabilidade, favorece a capacidade de elaborar outros discursos e, portanto, constituir novas maneiras de relação. Segundo minha querida Andréa Bardawil (2011):
[...] a desestabilização nos provoca algo de bom: as novas estruturações de pensamento. Portanto, nossas práticas também não serão as mesmas. 
[...] Exercitar o deslocamento do olhar é admitir que se revirem em nós as categorias e dicotomias [...], que se embaralhem as definições e se desconfigurem os significados [...]

Vamos desestabilizar poeticamente!



terça-feira, 10 de março de 2015

Relações entre imaginário, campo simbólico e musculatura postural


Cláudia Damásioartista, professora e pesquisadora da dança nos diz que: 
[...] Os músculos profundos, chamados de posturais, tônicos, ou ainda gravitários, estão no cruzamento dessas várias instâncias do corpo de que já falamos: biomecânica, motora, perceptiva, afetiva, com sua variação tônica criando “estados de corpo” distintos [...].

A ligação entre a instância simbólica e a função dos músculos tônicos, como nos convida a pensar Cláudia Damásio, faz muito sentido com o pressuposto de Lyli Ehrenfried, desenvolvedora da Ginástica Holística, de que há “[...] um paralelismo rigoroso entre o seu físico e o seu psiquismo. [...]” (EHRENFRIED, 1990, p. 12).

Essas intuições, estudos e afirmações de quem vivenciou e estudou movimento, observando em si e em outros os efeitos provocados pelo mover ao longo da vida, convergem e validam a minha intuição sobre a instabilidade como poderosa ferramenta propiciadora de movimento e de reintegração entre imaginário e bem estar, porque a instabilidade é capaz de acionar a musculatura profunda, fora do controle voluntário, gerando respostas para além da racionalidade, que ensinam a nós mesmos; que tornam a experiência surpreendente para nós mesmos. 


Cena do espetáculo Ideias de Teto. Florianópolis, 2010. Foto: Adriana Cunha. 


quinta-feira, 5 de março de 2015

Desafios do educador através do movimento na atualidade


Parecem ser os Profissionais de Movimento, atravessados por tantas áreas de conhecimento, aqueles com ferramentas adequadas para desestabilizar estruturas sociais instaladas e provocar transformações políticas através da transformação do pensamento sobre corpo e movimento.
Desde práticas íntimas, que nos transformam a cada dia, passando pela resistência cultural necessária de continuar dançando, movendo, fomentando o campo, até a batalha política de ocupação, reconfiguração e convencimento de outras esferas sobre a importância vital desses saberes e fazeres.
Afinada com Sylvie Fortin, “(...) Sustento a ideia de que uma modificação nas fontes de saber empreende uma mudança nas relações de poder. (...)” (FORTIN, 2003, p. 163)
Nesta intenção, listo, aqui, alguns desses pressupostos com os quais me afino:
- não há outro lugar para a produção de conhecimento e a consciência que não seja a materialidade do corpo vivo;
- a base da construção da inteligência/pensamento/sentimento é a motricidade;
- corpo é ideologia;
- cada experiência/vivência se corporifica através de movimento corporal visível ou não aos olhos;
- corpo, movimento, imaginário e arte proporcionam complexidades favoráveis a caminhos evolutivos.





quarta-feira, 4 de março de 2015

Criando ambiente estranho através de bases instáveis

Brent Anderson - fisioterapeuta incrível, que reabilita pacientes prioritariamente através do movimento, tendo como principal ferramenta o método Pilates, multiplicador e referência no campo e um grande mestre com quem tive a honra de aprender - considera como ambiente estranho aquele que propicia diferença na posição do corpo em relação à gravidade, enquanto realiza uma tarefa funcional, desestabilizando as referências conhecidas, para acessar novas estratégias perceptivas que acionarão novos comandos motores. 


Não à toa, uma das primeiras estratégias para a reeducação de movimento é viabilizar a experiência de movimento em ambiente estranho, que seria, por exemplo, simular uma caminhada fora da posição vertical-bípede. Trata-se de mexer com as estruturas acostumadas, modificar padrões instalados, encontrar formas de desfazer os esquemas viciados. Colocar-se em ambiente estranho é uma oportunidade de recriar os pressupostos sobre a ação. 


Sherri Betz testando o protótipo. Brent Anderson acolchoando meia-lua para testar as possibilidades que começavam a ser compartilhadas a partir daquele ano.

terça-feira, 3 de março de 2015

Simulação de uma caminhada: movimento da função e da fantasia

A característica de balanço da Flymoon® viabiliza, dentre muitas outras possibilidades, a simulação de uma caminhada, sendo que, ao invés da alternância entre ponto fixo e ponto móvel (chão e perna que dá o passo), teremos as duas pernas apoiadas todo o tempo, em cadeia cinética fechada e, simultaneamente, pela característica do arco, as duas pernas estão realizando movimento todo o tempo, alternando-se entre contrações concêntricas e excêntricas. A negociação entre permitir que a gravidade atue e frear o movimento, regulará a velocidade dessa ‘caminhada’, que foi o primeiro movimento sistematizado como exercício e batizado de 'Andando na Lua'.
A desaceleração na fase da descida é um movimento atípico na nossa esfera terrestre. É uma aparente subversão da gravidade inesperada por quem se move e por quem assiste ao movimento. Cria a interessante ilusão de que aquela caminhada está sendo feita num ambiente de gravidade reduzida, na lua ou dentro d’água, despertando curiosidade e obrigando quem pratica e quem observa o movimento a reconfigurar sua percepção, deslocando o sentido de realidade, capaz de alimentar seu imaginário e fazer crer em impossibilidades que se realizam: ‘como é possível que o efeito da gravidade seja diferente naquele corpo?’. Esta ilusão é possível apenas – neste caso específico – pelo uso do equipamento. 



                               

segunda-feira, 2 de março de 2015

O primeiro insight


O primeiro insight foi ficar em pé sobre as bordas. Esta foi a posição que iniciou todo o trabalho. A posição bípede (com o apoio de um pé sobre cada borda da Flymoon®), a mais imediata para a maioria das pessoas, apesar de muito familiar no chão, torna-se inédita e estranha sobre a base abaulada, móvel e estreita, que é a Flymoon®. 

Estar em pé sobre esta base instável não é o mesmo que estar em pé sobre o chão plano e fixo. O arco revela qualquer variação na distribuição de peso entre as pernas, mais comuns do que imaginamos, gerando pequenos balanços involuntários ao tentarmos equilibrar o peso igualmente sobre os dois pés. No imediato momento em que balançamos, entram em ação os sistemas de equilíbrio do corpo – visão, labirinto e sensores proprioceptivos , que trabalham acionando, involuntariamente, a musculatura mais profunda, estabilizadora, para nos manter em equilíbrio.


Não há indicação externa que possa solucionar o seu desequilíbrio de forma tão rápida e eficaz quanto a sua própria inteligência corporal. Essa ‘autoridade’ sobre o próprio esquema corporal é constituinte de todo o trabalho sobre a Flymoon®, que privilegia a autonomia na construção do próprio conhecimento motor. A competência vai sendo desenvolvida a partir da experiência, irrepetível e insubstituível, que não pode ser ‘dada’ pelo professor. Portanto, a busca criativa é parte fundamental desse processo. Quando o movimento está associado à fantasia, imaginação, poesia e ludicidade, existe motivação e a ação fica repleta de sentido. 







domingo, 1 de março de 2015

About the hidden obvious and the baptism of Flymoon® / Sobre o óbvio oculto e o batismo da Flymoon®

According to Stephen Nachmanovitch (1993)
"Many of the major scientific, artistic and spiritual discoveries were actually revealing a surprising truism that no one so far had managed to see or imagine because they were all too frightened or too attached to traditional thinking."
Inspired by the swing, by the passion for everything that takes me off the floor, by the possibility of playing physically and symbolically with gravity, in 2001, on my research about movement in the Pilates studio and on the rehearsals of Ideias de Teto, I reversed the Half Moon, then supported its convex face on the floor and teased the instability that would completely change my life.
I wasn't able to find any records that this reversal had been tested before by any follower or practitioner of Pilates technique and not even by himself, which caused me great surprise, because at that time such use seemed so obvious, that I had no idea of the size of the novelty that was arising.
The new use made of the Half Moon already indicated the rise of something new. Conceptually, it had changed its purpose, it was no longer the same Half Moon. I started to call that new idea "reversed Half Moon" until, with the conceptual, methodological, material and commercial development that invention began to demand, Cláudio Soares (partner in this construction) suggested the name Flying Moon. I really liked it, but it still needed to be leaner and simpler, as the arc itself. I suggested Flymoon, one word only, with a poetic license to English grammar. And then we decided to leave it like this.
What was not predictable at the time was how much this invention would synthesize and symbolize everything that moves me and interests me; how much of a 'key' for new discoveries of my past and future choices it would mean; how much aggregating it would be to so many environments and so many professionals, who meet each other because of the movement.

Segundo Stephen Nachmanovitch 
(1993)

"Muitas das grandes descobertas científicas, artísticas e espirituais foram na verdade a revelação de uma obviedade surpreendente que ninguém até então havia conseguido ver ou imaginar porque estavam todos demasiadamente amedrontados ou excessivamente apegados ao pensamento tradicional."

Inspirada pelo balanço, pela paixão por tudo o que me tira o chão, pela possibilidade de brincar física e simbolicamente com a gravidade, em 2001, nas pesquisas de movimento no estúdio de pilates e nos ensaios de Ideias de Teto, inverti a Meia Lua, apoiei sua face convexa no chão e provoquei a instabilidade que mudaria completamente a minha vida. 

Não encontrei registros de que essa inversão tenha sido testada antes por nenhum seguidor ou praticante da técnica de Pilates e nem por ele mesmo, o que me causou imensa surpresa, pois, naquele momento, aquela utilização me parecia tão óbvia, que não tive a noção do tamanho da novidade que estava surgindo.

O novo uso dado à Meia Lua já apontava para o nascimento de algo novo. Conceitualmente, aquilo tinha mudado de função, já não era mais a mesma Meia Lua. Passei a chamar aquela nova ideia de Meia Lua invertida, até que, com o desenvolvimento conceitual, metodológico, material e comercial que esse invento começava a demandar, Cláudio Soares (parceiro nesta construção) sugeriu o nome Flying Moon. Gostei muito, mas ainda precisava ser mais enxuto e simples, como o próprio arco. Sugeri Flymoon, numa única palavra, numa licença poética à gramática inglesa. E em consenso deixamos assim.


O que não era previsível na época era o quanto essa invenção sintetizaria e simbolizaria tudo o que me mobiliza e me interessa; o quanto significaria uma 'chave' para novas descobertas das minhas escolhas passadas e futuras; o quanto seria agregadora de tantos ambientes e de tantos profissionais, que encontram-se pelo movimento.